InícioBlogPor que os gaúchos chamam tangerina de bergamota? Entenda a origem do...

Por que os gaúchos chamam tangerina de bergamota? Entenda a origem do nome

Em 14 de julho de 2015, aparentemente incomodado com alguma discussão de internet – o que, convenhamos, não ajuda muito a identificar o episódio -, publiquei um texto tentando resolver uma questão de extrema importância para a humanidade:

mexerica, ponkan e murcott são a mesma coisa?

Minha explicação começava com a delicadeza habitual:

“Será que eu vou ter de escrever um textão explicando que tangerina é a ‘classe’ e que mexerica, ponkan e/ou murcott são os tipos de tangerina?”

Depois, parti para aquilo que sempre fiz no Homem na Cozinha: tentei explicar comida do jeito que ela aparece na vida real.

A mexerica era aquela que perfumava a sala inteira quando alguém descascava.

A ponkan era a mais fácil de abrir — e servia, segundo minha rigorosa metodologia científica, para enfiar o dedão no meio e brincar de dedo inchado.

A murcott era aquela de casca difícil bagarai de descascar.

Pronto.

Parou a briga?

Provavelmente não.

Mas havia um problema maior.

No fim daquele texto, escrevi:

“PS: Bergamota é uma invenção gaúcha que eu não sei — preciso pesquisar — de onde surgiu.”

Pois bem.

Pesquisei.

Demorei 11 anos, mas pesquisei.

Bergamota não é uma invenção gaúcha

Comecemos pela parte mais dolorosa para meus amigos do Rio Grande do Sul.

Não.

Vocês não inventaram a bergamota.

Pelo menos não a palavra.

O termo bergamota chegou ao português pelo italiano bergamotta. Dicionários etimológicos relacionam a palavra à expressão turca beğ armudı, algo como “pera do bei” ou “pera do príncipe”.

Sim.

Pera.

Estamos falando de tangerina e, de repente, apareceu uma pera turca no texto.

Calma.

A confusão melhora.

A bergamota original nem é a bergamota do gaúcho

Existe um cítrico chamado bergamota, geralmente identificado botanicamente como Citrus × bergamia.

Ele é aromático e sua casca é usada para a extração do óleo essencial de bergamota. Esse óleo aparece na perfumaria, em alimentos e é especialmente conhecido por seu uso na aromatização do chá Earl Grey.

Ou seja:

aquele cheiro cítrico elegante do Earl Grey tem relação com uma bergamota.

Só que não necessariamente com a bergamota que você compra na feira de Porto Alegre.

E é aqui que a língua portuguesa brasileira resolve transformar uma simples fruta em pauta para o Homem na Cozinha.

Então por que tangerina é bergamota no Sul?

Porque comida também é linguagem.

O dicionário Michaelis registra bergamota como denominação regional, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, para tangerina.

Em algum momento, portanto, o nome de um cítrico aromático atravessou línguas, lugares e usos e passou a identificar regionalmente aquilo que boa parte do Brasil chama de tangerina.

E talvez essa seja a parte mais interessante da história.

Os nomes dos alimentos não obedecem apenas à botânica.

Eles obedecem às pessoas.

À imigração.

Ao comércio.

À memória.

À forma como uma avó chamava determinada fruta e como seus filhos repetiram aquele nome para os netos.

Um botânico pode organizar espécies.

Uma família organiza lembranças.

Tangerina, mexerica, ponkan ou bergamota?

Aqui preciso fazer uma correção no Ricardo de 2015.

Minha explicação de que “tangerina é a classe” era uma tentativa bastante doméstica de encerrar uma briga de internet.

Funcionava para explicar a ideia.

Botanicamente, a história dos cítricos é bem mais complicada.

No uso cotidiano brasileiro, tangerina funciona como uma denominação ampla para frutas de um grupo de cítricos que recebe diferentes nomes, variedades e classificações.

Mexerica.

Ponkan — ou poncã.

Murcott.

Bergamota.

Mimosa.

Mandarina.

Dependendo de onde você nasceu, a mesma conversa na feira pode exigir praticamente um tradutor simultâneo.

E ainda há diferenças reais entre variedades e híbridos.

Ou seja: algumas vezes estamos discutindo nomes diferentes para frutas relacionadas.

Em outras, estamos colocando frutas botanicamente diferentes dentro do mesmo balaio linguístico.

O que explica muita discussão de internet.

E absolutamente nenhuma delas será resolvida nos comentários deste texto.

O cheiro da mexerica também fazia sentido

Outra coisa que escrevi em 2015 era que a mexerica parecia deixar mais cheiro no ambiente e nas mãos quando descascada.

Minha explicação falava dos óleos presentes na casca.

A ideia geral não era absurda.

As cascas dos cítricos possuem estruturas onde se concentram óleos essenciais. Ao dobrar, romper ou apertar a casca, pequenas gotículas podem ser liberadas.

É aquele pequeno spray que você consegue perceber quando descasca determinadas frutas.

Talvez eu não estivesse completamente errado.

O que é sempre uma notícia agradável quando encontramos um texto nosso publicado há mais de dez anos.

Demorei 11 anos para pesquisar a bergamota

O Facebook me mostrou novamente aquele texto de 2015.

E descobri que havia deixado uma pequena dívida editorial comigo mesmo.

“Preciso pesquisar.”

Pesquisei.

Onze anos depois.

E talvez seja exatamente por isso que continuo escrevendo sobre comida.

Porque uma tangerina nunca é apenas uma tangerina.

Às vezes ela é mexerica.

No Sul, pode ser bergamota.

Em uma palavra italiana, existe uma história que aponta para uma expressão turca.

Em uma casca, há óleo suficiente para perfumar as mãos.

E em uma fruta comprada na feira pode existir uma discussão que atravessa onze anos.

Comida é memória.

Comida é linguagem.

Comida é história.

A gente só precisa parar para descascar.

Ricardo Cobra
Ricardo Cobra
Pai, chef de cozinha e, acima de tudo, um eterno curioso. Da aversão à dupla esponja e detergente, nasceu o auxiliar de cozinha em uma viagem com tarefas compartilhadas; da curiosidade, formou-se o profissional. Pós-graduado em Cozinha Autoral e com forte base em Gestão e Inovação, Ricardo Cobra une a precisão técnica ao calor do fogo. Atuando como personal chef, consultor e facilitador no Homem na Cozinha Lab ele mantém seu "filho mais velho" com o mesmo cuidado da fundação. O que começou há 20 anos como um espaço para desmistificar as panelas, hoje é o alicerce de um ecossistema completo de gastronomia, tecnologia e lifestyle."
RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

- Publicidade-

Most Popular